Rayssa Dias sonha com a carreira de cantora e já começa a trilhar uma trajetória - Foto: Jose Britto
Entrevista

Conheça o brega romântico e engajado de Rayssa Dias

A pernambucana de 24 anos sonha grande, do tamanho do seu talento

Faz tempo que o brega precisa de um sacode, uma chamada. E é isso que Rayssa Dias quer fazer. Mulher preta, periférica, acostumada a enfrentar nãos e olhares atravessados. É assim que ela se define. E sua vida é isso mesmo. Mas também é mais. Aos 24 anos e com um monte de sonhos, a pernambucana de Salgadinho, em Olinda, mira na carreira de cantora de brega. O cabelo bem curtinho, crespo, o corpo magro, e a cor da pele, negra, faz com que, como ela mesma diz, não a vejam como uma cantora. Ao passo que encanta, com uma voz afinadinha e um sorrisão, também quebra todo o estereótipo de uma mulher que canta o ritmo. Rayssa ganha destaque principalmente pelo trabalho incansável da produtora Aqualtune, formada só por mulheres negras de várias áreas. O coletivo está na batalha diária para dar visibilidade às artistas negras da periferia que não têm equipamentos e condições para entrar na disputa do mercado. Não é fácil: as portas fechadas já viraram uma realidade.

Foto: Jose Britto

As mais de 20 composições são inspiradas em experiências da vida. O ritmo swingado e meloso que embala as frases românticas são só um lado de Rayssa. O outro é engajado, ativista, de quem absorveu o que há de mais bonito e forte nos recitais de rua, que vivem e resistem, a exemplo do Boca no Trombone e Slam das Minas PE. A menina que canta “Deixa o povo falar, meu coração é todo teu” também dá voz a versos do tamanho deste: “Sou mais uma preta problema e ando roubando a cena. Certo dia, entrei no mercado e o vigia colou do meu lado. Notei que todos me olharam. Mas não me senti intimidada. Era só mais um dia normal. Se não acontecesse, não era real”.

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Rayssa inova com uma espécie de brega funk ativista – Foto: Jose Britto

Filha mais velha de três irmãos, Rayssa foi criada pela mãe, Dona Terezinha, por quem, aliás, começou a cantar. “Minha mãe adorava brega. E eu queria chamar a atenção dela”. Foi aos 12 anos que começaram as composições, ainda meio atrapalhadas e sem estilo definido. A cantora foi aprimorando a escrita e já tem músicas que são promessas de sucesso. Em 2017, ganhou prêmio e tudo com a música “Doce Ilusão”.

Recentemente, começou a escrever versos de brega funk, mas com uma pegada diferente: empoderado. Tudo começou quando ela foi a um baile e uma amiga sofreu um assédio. E o acusado usou como “justificativa” o fato dela estar com uma roupa curta e rebolando muito. A indignação virou motor para Rayssa. “Eu, como cantora, eu tenho que fazer alguma coisa pra que a gente possa acabar com isso. Pra que nós, mulheres, possamos ir ao lugar que a gente quer, fazer o que a gente quer, independente de qualquer coisa, que a gente não sofra nenhum tipo de assédio”.

A revolta ganhou forma e nome: a música “Fica na Tua”, feita em parceria com Lady Laay. “Homem escroto não tem perdão/nem dá tapinha na minha bunda/ Quando eu chegar no baile/ Sentando e quicando/ Tu fica na tua/ Se tu não respeitar/ A ideia é uma só/ Tarado aqui no baile nós ‘passa’ o cerol”, diz um trecho.

Ser mulher tentando protagonismo numa cena em que as mulheres –geralmente brancas- aparecem, predominantemente, como alvos e à disposição da sexualidade masculina é o desafio que Rayssa topou encarar. E, para ela, não adianta só a música chiclete, que faz todo mundo cantar, mas a mensagem.

Rayssa ainda não consegue viver da música. Divide-se entre a agenda de shows e a atividade de professora no Instituto Espírita Allan Kardec e Lar Ceci Costa, onde, aliás, ela estudou. E não tem para onde: lá ela reina absoluta. É inspiração e exemplo. “Eu digo aos meus alunos: não é só por mim. É por todos. Não é uma luta só minha. É por todo mundo. Uma visibilidade que eu quero alcançar num meio onde uma pessoa negra não tem essa visibilidade, onde a mulher não tem espaço”, comenta.

Foto: Jose Britto

As influências musicais passam por nomes como Priscila Senna, Tayara Andreza, Dadá Boladão, Troinha. Esses são só alguns dos artistas que despertam nela o sonho de gravar um álbum e bombar em Pernambuco, no Brasil. Rayssa sabe do que tem, de quem é, aonde quer chegar. E sonha à altura do seu talento.

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